3 de abril de 2013

Guerra aos mosquitos

Ubaldino Gusmão Figueira
Monte Carmelo, Minas Gerais, 1939.

(Foto: Dr. Ubaldino Gusmão Figueira em 1958)
Entre o nosso povo há muita gente que, até hoje, ignora a transmissão de inúmeras doenças pelo mosquito. A medicina, no terreno da Microbiologia e Parasitologia, por intermédio da microscopia já dissipou as dúvidas e tem, cabalmente, provado com centenas de experiências feitas em animais e até no homem, que o mosquito é o transmissor do impaludismo, febre amarela, etc. Quanto ao impaludismo, também conhecido por sezão, maleita, febre dos rios, tremedeira intermitente, queimadeira, etc., esta moléstia tem ceifado vidas de milhares de brasileiros nas margens dos rios, lagos, lagoas, riachos de nossas matas, e contagia o homem por meio da picada do mosquito da família dos anophelinos. Esta revelação médica não é uma invencionice, porém o fruto de laboriosas pesquisas de cientistas. Em 1884 Dr. Manson , demonstrou que o mosquito transmitia a filaria ao sangue do homem pela picada daquele. O Dr. Laveran , com esta descoberta, imaginou a possibilidade de ser o mosquito o propagador da maleita. Falando ao Dr. Ross , este médico, que se encontrava na Índia, país maleitoso, reuniu várias raças de mosquitos e os pôs em contato com os doentes, cada raça por sua vez. Após a picada destes, o Dr. Ross os levou ao microscópio e pode encontrar, agarrados a parede do estômago dos mosquitos, os “esporozoitos” que são formas do parasita da moléstia. Este parasita fica nas glândulas salivares do mosquito, e após ter passado por outros órgãos, no ato da picada atravessa numa gotícula de saliva do mosquito, e penetra no orifício da pele picada, para impedir a coagulação do sangue no ato da sucção, e por este meio cair na circulação.
Com estas explicações simples e ao alcance de todos, não deve pairar nenhuma sombra de dúvida a respeito desta verdade científica. Então, o dever impõe dar cabo aos mosquitos, abrindo caminhos às águas empoçadas, que são focos e viveiros de mosquitos. Nunca deixar água em latas de jardim, estagnadas em poças junto a casa.
Numa dada região da Itália a maleita estava matando muita gente, apesar das enérgicas providências que tomaram as autoridades sanitárias para sanear a região. Não conseguindo, por estes meios, jugular a endemia o Governo resolveu ampliar ali a criação de porcos, e com esta medida desapareceu a maleita. Por quê? Muito simples a explicação: os porcos no instinto de fuçar e remexer a terra, a água, a lama, o pântano, revolviam a água, e sepultavam na lama a postura dos mosquitos, tendo este que desaparecer. Se nos faltarem outras medidas de combate ao mosquito, criemos porcos, não presos junto a casa, mas soltos, pelo menos durante algumas horas do dia, para que aconteça conosco o que sucedeu na Itália.
Não construir casas junto à água nas baixadas, mas em lugar seco e alto onde a corrente de ar é intensa e impede a permanência do mosquito nas imediações da casa.
Outro combate que não se pode olvidar é das moscas, pulgas, percevejos, baratas, ratos, etc. Em danos a saúde, a mosca leva vantagem aos demais: assenta em toda imundice para depois co
ntaminar o alimento, o copo, o talher, a xícara, o prato, a toalha, etc. Da chaga exposta do leproso, do escarro do tuberculoso, ela passa num rápido vôo ao nariz, a boca de outra pessoa. Nunca deixeis vossas refeições expostas; usar o guarda-comidas de tela, tão asseado e econômico!...
As latrinas, fossas fixas, privadas constituem uma proteção à saúde. Depois que os estudos científicos vieram esclarecer que as dejeções, ou fezes humanas expostas sobre o solo são uma ameaça à saúde, é dever imperioso de cada indivíduo abrir fossas destinadas a receber as fezes, impedindo que estas causem a disseminação de muitas doenças.
O espaço desta nossa palestra é exíguo e não permite uma exposição detalhada em torno deste importante assunto. Diremos em breves pinceladas, como, por quê, e para quê a fossa fixa. Não pretendemos explicar uma fossa modelo que obedeça a todas as exigências da higiene: façamos o mínimo, que é uma escavação quadrangular ou circular, no chão, com uma profundidade de 20 palmos por um diâmetro que varia de 4 a 8, coberta e afastada da fonte, ou horta. Ali deveis levar, diariamente, a cinza que fica nos fogões para corrigir o mau hálito . Já dissemos atrás, que várias moléstias alastram em populações inteiras pelas fezes lançadas ao chão livre. Com a vinda das chuvas, a enxurrada arrasta aquela sujidade toda, que se espalha pela terra afora, penetrando nas hortaliças, couve, alface, taioba, cebola, e semeando micróbios por toda parte. Essas verduras, via de regra, são preparadas cruas em saladas, e nelas vão agarradas as folhas, micróbios de paratifo, tifo, disenteria amebiana, verminose e outras mais. Deste modo se processa o contágio.
Prevenir é o conselho da higiene. Com a adoção das latrinas dá-se provas de educação mais elevada, compreensão mais nítida da perfeita higiene e concorre-se para o bem estar coletivo.


30 de março de 2013

A seca no sudoeste baiano na década de 1950.


Memória Cultural: Escritos de Ubaldino Gusmão Figueira
Conheça o original da Carta enviada para o Presidente Getúlio Vargas. 





A seca ora vivida no município de Vitória da Conquista em 2013, não difere muito da estiagem ocorrida nos primeiros anos da década de 1950. A carta redigida por Dr. Ubaldino Gusmão Figueira para ser assinada por outros signatários e encaminhada ao Presidente Getúlio Vargas descreve a seca no município de V. da Conquista.

A seca na década de 1950 (1º esboço)

Exmo. Sr. Dr. Getúlio Vargas
DD. Presidente da Republica

Nós, os signatários destas linhas, fazendeiros, criadores e agricultores do Sudeste e Sudoeste Baiano, diante da calamidade quase nacional, que assola a Bahia, e demais estados encravados no chamado polígono das secas, caracterizada pela estiagem prolongada, que só em nosso Estado já ocasionou a perda de mais de 20% de nosso rebanho bovino (já não falando do cavalar, suíno e caprino), motivada pela falta de pasto, cujo broto surgido da primeira e última chuva de 13 de dezembro, já desapareceu ante o sol abrasador que nos castiga e pela escassez de água pois em inúmeras fazendas, os ribeirões já não correm mais e as barragens secaram. Nossa lavoura proveniente da planta de dezembro está inteiramente perdida, os pequenos agricultores que constituem cerca de 80% dos lavouristas baianos estão sem semente para uma segunda planta (se ainda chover até março) e já experimentando os horrores da fome e da nudez. Aqueles que povoam as caatingas em grande número já realizaram um doloroso êxodo para S. Paulo e norte do Paraná e, os que ainda restam nem mais sair podem: sem pão, sem roupa e sem dinheiro!
Premidos por este trágico desenrolar de fatos, numa época como a que atravessamos, em que a alta dos gêneros de primeira necessidade e de tudo mais que existe no comércio está sem paralelos em toda a nossa vida passada, enquanto nossas cidades de momento a momento, mais se apinham de flagelados, não temos outra alternativa senão lançar nosso angustioso apelo aos poderes constituídos, em busca de um socorro urgente. Nosso comércio de gado está todo interrompido e as perspectivas futuras são as mais sombrias, pois, se não chover dentro destes 30 dias, a mortandade reduzirá o nosso rebanho a 100% por cento. Atualmente estamos vivendo das reservas acumuladas nos anos anteriores à presente seca; e como se pensar ainda em imposto sobre a renda?
Em virtude deste acervo de razões é que nos dirigimos à pessoa de V. Exa. possuidora que é de um espírito impregnado de sadio patriotismo, de um devotamento crescente aos legítimos interesses de nosso povo, de um sentimento de amor e justiça a serviço da solução imediata dos problemas graves que ameaçam a vida dos humildes e anônimos brasileiros que lutam nestes sertões agrestes, sem água, quase sem estradas, sem assistência social e quase nenhuma assistência hospitalar, sem máquinas agrícolas, sem amparo no que diz respeito às obras contra a seca, sem crédito agrícola e pecuário menos burocrático e mais acessível ao pequeno fazendeiro.
O que pedimos a V. Exa. é:
1) socorro pronto e rápido aos flagelados de todos os municípios atingidos pela seca;
2) maior facilidade para o crédito agropecuário;
3) a construção em nossa região de várias barragens, usando para este fim os flagelados que aqui e por todas as nossas cidades, pedem trabalho para não morrer de fome;
Só em nosso município, na vigência do governo de V. Exa. já foram escolhidos dois locais para os referidos açudes na zona das caatingas, porém estas obras ainda não se iniciaram.
Convictos de que V. Exa. atenderá a este justo e comovente clamor, dos sertanejos baianos subscrevemo-nos:

Ubaldino Gusmão Figueira 


A seca na década de 1950 (2º esboço)


Por este trágico desenrolar de fatos, numa época em que a alta dos gêneros de primeira necessidade e de tudo o mais, que aflige as nossas populações sertanejas, nós, que subscrevemos este angustioso apelo, estamos vivendo presentemente das reservas que nos anos anteriores adquirimos; pois o comércio de gado está praticamente interrompido. Receosos de que a mortalidade de gado continue, e esta será inevitável se o sol continuar por mais 30 dias; em face desta grave realidade, é que nos dirigimos a V. Exa. Dr. Getúlio Vargas, confiados no seu espírito altamente patriótico, no devotamento aos problemas nacionais, no coração compadecido diante dos brasileiros anônimos e humildes que moram nestes sertões agrestes, sem água, sem estrada, sem assistência social, sem um crédito agrícola accessível, sem máquinas para o amanso da terra; confiados ainda no desvelo com que V. Exa. examina e providencia a imediata solução a problemas semelhantes é que nós pedimos:
· socorro para os flagelados baianos;
· maior facilidade para o crédito pecuário e agrícola; (menos burocracia)
· uma medida urgente no sentido de se iniciarem os açudes para nossas caatingas, cujo solo é ubérrimo;
· que nos seja dispensado o imposto sobre a venda, recentemente criado, até que a presente crise cesse e voltem os tempos de fartura trazida pela regularidade das chuvas.


Notas 


Este texto, carta, abaixo-assinado, esboço de correspondência foi redigido por Ubaldino Gusmão Figueira para ser assinado por pessoas de vários segmentos sociais deve ter sido encaminhado ao Dr. Getúlio Vargas. Estamos pesquisando para levantar o ano dessa seca no período do governo Gerson Gusmão Sales nos primeiros anos da década de 1950. No esboço da carta, Ubaldino escreve o nome de Gerson Gusmão Sales como 1º signatário. (Ver original do documento)
Ubaldino Gusmão Figueira (1907- 1969). Ubaldino Gusmão Figueira nasceu em Vitória da Conquista, Bahia no dia 04 de outubro de 1907. Filho de Virgílio Manuel Figueira e Maria Gusmão Figueira. Médico cirurgião formou-se em 1932 pela Faculdade de Medicina de Minas Gerais. Escreveu ensaios sobre política e saúde pública, era poeta, orador e garimpeiro. Protestante, membro fundador da 2ª Igreja Batista de Vitória da Conquista. Médico muito competente e dentre os seus feitos na área da medicina destaca-se a autocirurgia de apêndice, realizada em 05 de fevereiro de 1943 na cidade de Patos, Minas Gerais.
Este texto de Ubaldino Gusmão Figueira é parte dos diversos escritos que se encontram no Arquivo do Programa Letras de vida: escritas de si. In: Escritos de Ubaldino Gusmão Figueira, Carta ao Presidente Getúlio Vargas. Museu Literário Profa. Amélia Barreto de Souza. Comitê Proler/UESB de Vitória da Conquista. Sala de Leitura Íris Silveira. Setor Pró Memória. Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. V. da Conquista, Bahia, Brasil. 2012. prolervc.blogspot.com Organização Heleusa Figueira Câmara. Revisão Diana Câmara, Heleusa Câmara, Maria de Lourdes Bastos. Digitação Márcia Betânia Amorim. 28/01/2013

20 de fevereiro de 2013

Ponto Literário e Responsabilidade Social.

O Ponto Literário em Vitória da Conquista é um programa libertário instigante tenho em vista não implicar em regras e punições para o uso dos livros que são disponibilizados a comunidade em geral. A sociedade conquistense compreende que o processo de educação cultural literária é complexo e não tem tempo delimitado para o seu proposito que é o de estimular a leitura e promover noções de responsabilidade com os bens públicos. Livros, revistas, publicações variadas em diversos matizes são oferecidos as pessoas que podem levar para casa o que estiver nas estantes do Ponto. Todo este acervo é doado pela comunidade conquistense que compreende a grandiosidade de saber compartilhar. No dia14 de fevereiro de 2013, a equipe do Proler/UESB se reuniu com a nova coordenadora deste programa a Cientista da Informação Célia Maria da Silva Régis, agente administrativo da Biblioteca Municipal José de Sá Nunes. Este projeto conta com o apoio de UESB e da Secretária Municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer. O secretário Gildelson Felício de Jesus está sempre empenhado pelo desenvolvimento cultural de Vitória da Conquista.

Da esq. para a dir.: Lucimauro Pales, Heleusa Câmara, Vivaldo LEão (fotografo da UESB), Rosália Santana, Célia Maria da Silva Régis e Claudia Flores.


Reposição de acervo no Ponto Literário no dia 12 de fevereiro de 2013. Fotografia por Célia Maria Régis.

Revistas e livros para todos os propósitos. Liberdade para escolher. Fotografia por Célia Maria Régis

Como se faz a reposição do acervo no Ponto Literário

No dia 15 de fevereiro a equipe do Proler/UESB renova o acervo no Ponto Literário. Todos os livros e revistas são doados pela comunidade.



Um bagageiro muito especial levando livros e revistas para o Ponto Literário.

Descarregando os livros na Av. Lauro de Freitas.

É um pacote muito especial que o Sr. Djalma Santos está transportando.

Agora mãos a obra para arrumar os livros.


Uma estante arruma é outra coisa! O Sr. Djalma acompanha o trabalho de Maria de Lourdes Bastos.

Missão cumprida!  Heleusa Câmara e Sr. Djalma Santos. Maria de Lourdes Bastos fotografou o sorriso do Sr. Djalma.